João Vitor Marques – Enviado Especial no Catar

postado em 27/11/2022 06:00

Corrida de camelos é esporte tradicional no Catar, país que sedia a Copa do Mundo de futebol. -  (crédito: João Vitor Marques/EM/DA Press)


Corrida de camelos é esporte tradicional no Catar, país que sedia a Copa do Mundo de futebol. – (crédito: João Vitor Marques/EM/DA Press)

À direita, uma placa sinaliza em alerta aos motoristas, que atentamente enfileiram os veículos e aguardam a vez de cruzar a rodovia. Aos poucos, centenas de camelos tomam conta da paisagem desértica de Al Shahaniya, sob o sol das 15h, que precocemente se aproxima do horizonte. Guiados pelos treinadores, atravessam o asfalto quente em frente aos carros e seguem rumo à pista de terra. A menos de 40 quilômetros dali, o anfitrião Catar se preparava para o jogo decisivo contra Senegal pela Copa do Mundo de futebol, no novíssimo Estádio Al Thumama. Mas, por aqui, as atenções estão voltadas para um esporte mais tradicional.


A corrida de camelos começou a ser disputada profissionalmente no Catar em 1972, mas tem origens que remontam à Idade Média. Historiadores apontam que os primeiros eventos foram realizados no século VII, na Península Árabe, como uma forma de entreter as elites locais em casamentos, comemorações e outros encontros festivos. A tradição persistiu ao longo dos séculos, popularizou-se e foi ganhando novos contornos competitivos, tecnológicos e financeiros.

“Aqui sempre fica cheio durante o período dos torneios, principalmente. Vem gente de todo o mundo para conhecer e fotografar. É uma das viagens que faço com mais frequência”, conta o motorista e guia Sharif, 43 anos, que nasceu na Índia, mas vive em Doha há 18. “É um esporte tradicional, que impressiona a família do emir Tamim bin Hamad Al Thani”, completa, em referência ao xeque catari.

O mercado do esporte no Oriente Médio é milionário. Os preços variam de lugar para lugar, mas os camelos mais baratos costumam custar U$ 50 mil (cerca de R$ 270 mil na cotação atual). Mais desejados, os “puro-sangue” ultrapassam a barreira do milhão. Em 2010, um saudita desembolsou impressionantes U$ 9,45 milhões (mais de R$ 51 milhões, atualmente) para comprar três animais. Já os campeões podem chegar ao preço de U$ 30 milhões (R$ 162 milhões).


  • Esporte em terras cataris envolve muito dinheiro e tecnologia
    Fotos: João Vitor Marques/EM/D.A Press


  • Corrida de camelos é esporte tradicional no Catar, país que sedia a Copa do Mundo de futebol
    João Vitor Marques/EM/DA Press


  • Corrida de camelos é esporte tradicional no Catar, país que sedia a Copa do Mundo de futebol
    João Vitor Marques/EM/DA Press


  • Corrida de camelos é esporte tradicional no Catar, país que sedia a Copa do Mundo de futebol
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No mercado oficial, não é permitida a aposta na corrida de camelos. A premiação aos vencedores dos campeonatos varia desde novíssimos carros SUV a itens que simbolizam a tradição local, como facas, espadas e até lanças. Nos eventos mais importantes, o prêmio é em dinheiro. Competições recentes distribuíram 10 milhões de riais catarenses (cerca de R$ 14,8 milhões) aos três mais bem colocados em uma disputa de 15 rounds.

Como funciona

É sexta-feira, dia de descanso e fé para os países muçulmanos. Na temporada das corridas, entre outubro e março, é também o momento das principais competições nacionais e internacionais na pista de Al Shahaniya, principal centro de corridas do país. Desta vez, por conta do Mundial de futebol nas cidades vizinhas, decidiu-se por ocupar parte do espaço com festividades e aproveitar a presença de turistas de várias partes do mundo. As disputas passaram para outras datas, mas os treinamentos seguem pela manhã e à tarde, com acesso gratuito aos fãs e curiosos.

“Pensei que ia ter corrida hoje, mas tudo bem. Deu para ver o treino, fazer alguns vídeos muito bonitos. Nunca tinha visto nada parecido com isso”, conta Óscar Muñoz, turista uruguaio que aproveitou um dia sem jogos da seleção no Mundial para visitar o local, que fica a menos de uma hora de Doha. Empolgado, ele pisa na terra e se esquiva do esterco para se aproximar dos animais, que calmamente se direcionam à vila que reúne cerca de 20 mil camelos.

As pistas de terra têm distâncias de cinco, sete ou dez quilômetros, mas há corridas de até 40 quilômetros — ou quatro voltas na maior trilha. Os camelos são divididos em categorias com base na idade e iniciam a preparação para os campeonatos logo ao nascer. Entre seis meses e um ano, são separados das mães e começam uma dieta rica em amido e proteína, com quantidades calculadas cientificamente para melhorar a performance. Em geral, um animal é aposentado por volta dos dez anos de idade — e tem mais 30 ou 40 pela frente.

Nas corridas, os principais competidores costumam alcançar sprints curtos de quase 70 quilômetros por hora e, nas disputas mais longas, podem manter os 50 quilômetros por hora durante 60 minutos. As estratégias para aumentar a velocidade passam pelo treinamento, a alimentação e por quem controla os animais. Durante muito tempo, crianças foram usadas como jockeys por pesarem menos que adultos. A prática foi severamente criticada até ser abolida em 2005.

Os competidores decidiram substituir as crianças por pequenos robôs, posicionados nas corcovas dos camelos e simulam os movimentos e as orientações de jockeys humanos. Do lado de fora das pistas, treinadores controlam as ações da máquina, em dinâmica que geralmente funciona como o planejado. Há diversos modelos de robôs, cujos preços variam de U$ 300 a 10 mil (R$ 1,6 mil a R$ 541 mil), a depender do peso e da qualidade.

Para acompanhar as corridas, o método mais tradicional é segui-la de carro. Paralelas às trilhas dos animais, três faixas de pista asfaltada se enchem de automóveis em alta velocidade nos campeonatos. Já nos dias de treino, homens montam os competidores e os guiam por todo o trajeto, enquanto os milionários donos dos camelos os seguem em belos modelos SUV e orientam os empregados.

Violação de direitos

A tradição movimenta milhões de dólares e fãs em toda a Península Arábica, mas tem sido severamente criticada ao longo das últimas décadas com acusações de violação de direitos humanos e dos animais. No início do século, várias instituições denunciaram o tráfico, a venda e o sequestro de crianças, majoritariamente de países asiáticos como Bangladesh, Sri Lanka e Paquistão, para trabalharem como jockeys.

O caso de Shameem Miah é apenas um dentre vários que chocaram o mundo antes de as crianças serem trocadas por robôs. Nascido em Bangladesh, ele foi tirado da família quando tinha apenas três anos e se tornou jockey em Dubai, luxuosa cidade nos Emirados Árabes Unidos. “Os donos dos camelos nos pesavam. Se a gente comesse muito, eles nos davam choques elétricos. Eu tinha muito medo deles, porque se eu perdesse uma corrida, eles nos batiam”, relatou, em 2009.

Até hoje, existem acusações de maus tratos aos camelos. Defensores dos direitos dos animais dizem que em alguns casos há severas restrições alimentares para controlar o peso e torná-los mais rápidos para as corridas. Em outros casos, as denúncias dizem respeito à excessiva carga de treinamentos e competições.


 



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